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O Verdadeiro Adversário
Se pensas que o Desafio Audax não é competitivo, então estás muito enganado. Pelo menos de meu ponto de vista, pois não conheço ninguém mais chato e difícil do que eu mesmo. E ter te competir contra si é sempre um supremo desafio.
Eu já me achava naquele estágio de que pedalar 200km não seria assim lá grande coisa. Todavia nada como o 1o Brevet Audax para pôr-me a par da realidade. Sabes aquele ditado que diz que “inteligente é quem aprende com os próprios erros e sábio é quem aprende com os erros do outros”? Eu ainda estou em segunda época para aprender com meus próprios erros.
Queluz pareceu-me agradável e junto com o Hotel Beira Rio não me desapontaram. A escolha da cidade foi estratégica. Ficava a meio caminho entre Rio e São Paulo e assim, penso eu, também estávamos divididos os participantes, que calculo eu, eram uns 17. Acho que a metade estava em bicicleta de estrada e as MTBs estavam adaptadas, como era o caso da minha. Havia também duas reclinadas do Pedro Zöhrer, uma Tandem com ele e o Alec e a Speed, a qual tive o prazer de pedalar no 2x200 de Campinas, com o Derek.
Todo mundo ficou pronto a tempo e a prova, sob direção do Marcelo Chagas, teve início às 7h15. Então tínhamos 13 horas e meia para ali estar de volta, pelo que pensei que em 10 horas a parada estaria resolvida (e eu que pensava que não era presunçoso porque sempre estava certo :-). Na vistoria, pudemos escolher nosso número de identificação. Não sou doido como o Zagallo, mas peguei o 13 para mim. E num gesto típico de cavalheiro, a única dama na prova, a incrível Kátia, pegou o número 24 e assim o resto dos marmanjos não tiveram a possibilidade de ter sua masculinidade questionada. O Cristiano veio fantasiado de Bozo de novo. Bem, se ele vai insistir em usar a camisa “Pois” de “Rei da Montanha”, então é bom que agüente também as gozações. Ou da próxima vez arruma a “Maillot Verd”, já a Jaune está pela hora da morte.
O grupo saiu relativamente junto e a altitude de Queluz era de 450m, com temperatura em torno de 27oC. Já na primeira serrinha os ciclistas foram-se dispersando (no topo deu 585m) e na descida para Areias já estávamos isolados, contudo eu vinha junto da Tandem, em que estavam o Pedro e o Alec, quando começamos a descida. Numa curva rápida eles entraram fortes e o Pedro não conseguiu fazer a segurar a bicicleta, derrapando no acostamento salpicado de pedrinhas levando o Alec consigo. E eu vi tudo. Fiquei desesperado e bastante preocupado quando vi as mãos do Pedro, sem luvas, todas esfoladas. Fiz pouca coisa para amenizar o trauma deles e quando o carro da direção de prova passou, eu segui meu caminho. Os dois foram ao hospital para curativos e ficaram relativamente bem depois. Bom, acho que não preciso dizer muito o quanto um par de luvas podem fazer muita diferença. Não sei se seria o caso de torná-las obrigatórias, assim como o “creme para vampiro” (protetor solar para os desantenados), que eu considero importantíssimo também.
Depois de Areias, antes de São José do Barreiro, houve outro trecho de subida, bem longo, que já me deixou pensando em como seria a volta. O asfalto até S. J. do Barreiro não estava muito bom, mas depois melhorou bastante. Até perto do PC1 tive o prazer de conhecer o Bill e com ele compartilhar alguns quilômetros de estrada. Cheguei ao PC1 às 9h23 e vi que os primeiros estavam uns 15 minutos na frente. Até ali eu pensei que houvesse uns dez na frente, mas eu não estava preocupado com isto. Reabasteci minha mochila com água em Arapeí e por ali pude pedalar na companhia do Derek em sua reclinada. Era quase um terço de prova eu parei para passar mais protetor solar e dar uma breve descansada, pois o sol já estava de lascar e meu termômetro só voltaria a marcar menos do que 36oC quando sol se escondeu por detrás das montanhas.
Em Bananal, parei para tomar sorvete. Estava tudo muito bom, mas o de tangerina era excelente, só que o preço era de cidade grande, R$18,00 o quilo! Neste meio tempo juntou uma boa turma. Mas saí antes e assim fui sozinho. Na bifurcação para Barra Mansa, quase fico com a opção “Angra dos Reis”. O calor era tanto que comecei a sentir dor de cabeça. E só havia sombra na pista contrária. Ainda bem que a estrada era pouco movimentada e assim eu ia “pescar” um pouco de sombra do outro lado. Meu termômetro chegou a acusar mais de 44oC e invariavelmente não marcaria menos do que 40oC até umas 15h da tarde. Depois de ter cruzado a fronteira SP/RJ vi o Manoel Terra, o Cris e o Alexandre vindos juntos, pela sombra, numa boa, e eu pensando com meus botões: “caramba, ainda tenho mais de 15 km até estar passando por onde eles estão agora”. Ainda assim, para mim, estava bom, mesmo que minha água estivesse quente como mijo.
Cheguei finalmente ao PC2 e cometi uns exageros ao pedir espetinho de frango com bacon para almoçar. Felizmente meu sinal de alerta tocou quando comecei a comer uma batata frita gordurosa e cheia de sal. Até parece que eu estava antevendo o que viria. Comprei analgésico e estava contente pelo simples fato de não estar com nada mais doendo além de somente minha cabeça. Meus joelhos tiveram piedade de mim. Eles sabiam o que viria, com certeza. Encontrei o Bill lá e assim partimos juntos, às 13h40. Enquanto estive parado lá, foi chegando o resto da galera. Ali em Barra Mansa registrei a altitude mínima de 390 metros. Logo que saímos da Dutra (um curto trecho), passamos pelo Hugo. Ele parecia bem e o cara é osso duro de roer, mas fiquei preocupado se aquele calor todo não iria tornar a tarefa do Brevet quase impossível, pois percebi que somente cinco ciclistas já estavam voltando para Queluz. O pessoal de Sampa que me desculpe, mas comentei com o Bill que, enquanto estivéssemos no estado do Rio, as coisas estariam ótimas. Tínhamos sombra, muito pouca subida e asfalto muito bom. Logo estaríamos saindo de “Valfenda” e entrando nas terras desérticas de “Mordor”. O inferno começaria logo depois da fronteira :-).
Assim tive a companhia do Bill um bom tempo. Quando ele abria numa subida, podia ter certeza de que no próximo vilarejo ele estaria tomando um refrigerante e logo estaríamos pedalando junto. Fui passando por alguns pedaleiros, quando vi a Kátia e lamentei que já fossem mais de 14h e ela ainda teria alguns quilômetros até o PC2. Para mim não bastaria só conseguir o Brevet, e eu já estava bastante preocupado com isto, mas que todos pudessem consegui-lo também. Fiquei pensando se a direção de prova iria levar em contar os quase 20km a mais que estaríamos pedalando.
Numa das horas em que estive sozinho na volta, tive de reduzi um pouco e passei por um bando de vacas, mas a surpresa era um boi chifrudo me encarando. Vá explicar para ele que eu prefiro as cachorras... sem essa! Putz, nesta hora eu fiquei preocupado. Depois de Bananal, pedalando com o Bill, passei por uma matilha de cães que se arremeteu para a pista num avanço suicida. A coisa toda seria engraçada, pois eram cães pequenos e bonachões, se não fosse o fato do Bill estar logo atrás. Não sei como ele fez, mas felizmente não caiu nem nada. Ô cambada de cães porras-loucas!
Encontrei o Betinho e o Bill num bar de beira de estrada que tinha o fantástico atrativo de uma ducha. Fiquei sabendo que o Cris e os outros dois tinham saído dali a pouco mais de 10 minutos. O Cris já não parecia bem. Em Formoso, onde estivera o PC1, encontrei o Bill de novo tomando uma coca. Tentei trocar os cinqüentinha que eu tinha, mas foi impossível. O Bill acabou repartido os últimos trocados dele comigo. Eram 17h40 quando saímos de lá. Ainda tínhamos umas 3h horas para percorrer os 45 km que faltavam. O sol já aliviara um pouco. Depois S. J. do Barreiro, passando-se a ponte da represa já acendi o pisca traseiro e no começo da primeira grande subida, a caminho de Areias, o Bill combinou de esperar-me lá em cima. Foi difícil esta subida. Lá em cima deu a altitude máxima que registrei, 635 metros. Colocamos os coletes e fomos para Areias. Lá tomamos nossa última coca e tive de arrumar um jeito para trocar o dinheiro. Foram mais de 10 minutos procurando e quando consegui, acabou que o pessoal de apoio que estava recolhendo os ciclistas desistentes nos emprestou um trocado e assim pudemos seguir, eram 19h40. Na última subida, pedi que o Bill não me esperasse e seguisse logo afim de que ele pudesse conseguir o Brevet, pois tínhamos de estar lá em Queluz até às 20h45.
Sozinho, quase no topo da última subida, parei e fiquei-me contorcendo todo, cheio de câimbras, até que consegui relaxar e pude admirar o céu estrelado e me perguntar: “porque quando me meto numa roubadas destas não está lua cheia?”. Mesmo com o farol, pedalar de noite em descidas é medonho. Só senti alívio quando vi as luzes da cidade. Horário de chegada ao Hotel: 20h38, 13 horas e 23 minutos de prova, no meu computador, quase 223 km.
Só que a história não acabou aqui. Cheguei pálido, fraco e com câimbras. O Cris tinha os mesmos sintomas e ainda por cima estava vomitando. Tínhamos o quadro claro de desidratação, fadiga e falta de nutrientes. Ficou-se ponderando se não seria melhor ir logo ao hospital ou não. Eu queria conversar com o Marcelo Chagas, que é médico, mas ele tinha passado por mim na estrada para ir recolher o resto do pessoal. Pedi então que me levassem para o hospital porque se fosse o caso de tomar soro, que fosse logo isso. Não deu outra. Fui bem atendido pela enfermeira Neuza e pelo Dr. Roberto. O Cris acabou chegando depois, e também melhorou rápido. O problema dele, além de não comer cebola, é que não gosta de agulhas :-).
Fizeram um teste simples para ver minha taxa de glicose no sangue e o resultado deu que eu deveria estar em coma! Tive de esperar um pouco mais para fazerem uma contraprova mais apurada e viram que o primeiro resultado estava absurdo. Minha pressão quando cheguei era 7 por 4; eu deveria estar desmaiado, mas esqueceram de me avisar :-). A pressão do Cris estava um pouco melhor que a minha e seu nível de glicose estava aceitável.
Procurei, durante toda prova, beber sempre água. Entretanto pude perceber o quanto a falta de eletrólitos (potássio, sódio etc.) podem fazer muita diferença. Umas bananas e uns isotônicos poderiam ter feito toda diferença, mas frutas não achei e também não procurei, além do que senti falta de tomar suco. É questão de ser mais atencioso da próxima vez.
Ah! mas consegui meu primeiro Brevet! Alexandre e Manoel chegaram bem. O Cris chegou um pouco a frente do Bill e eu logo depois. Derek e o Hugo conseguiram também, uma vez que estavam em Areias (204km) antes de 20h30 quando foram recolhidos. A propósito, estes dois me surpreenderam pela determinação. A turma dos Amigos do Pedal foi muito perseverante: o Hugo, para quem não conhece, já tem filho da minha idade e o Derek vem-se recuperando duma cirurgia no joelho.
No domingo fomos a Pousada Águas da Marambaia e tomamos um banho de cachoeira. Depois um super almoço. O lugar é excelente e o Alec foi até lá pedalando a reclinada Speed do Derek só para matar a vontade frustrada no dia anterior.
Tudo bem, foi difícil, e se não fosse, qualquer um faria. E olha que achei mais difícil do que no dia em que fomos de Rio a Campos (275km) em 16h com um calor igual e vento contra. E é por isso mesmo que tenho certeza de que o próximo Brevet de 200km não será tão difícil assim, ainda que venha a ser no mesmo percurso. Boa sorte galera e eu espero estar lá de novo, mas este Brevet eu já consegui! Que venha o de 300km e seja o que Deus quiser!
Alan Silva
membro fundador do Clube Audax Brasil
www.audaxbrasil.com
e integrante da equipe Amigos do Pedal
www.amigosdopedal.com.br
| By: | Alan Silva |
| Started in: | Queluz, SP, BR |
| Distance: | 217.3 km |
| Selected: | 217.3 km |
| Elevation: | + 3747 / - 3747 m |
| Moving Time: | 13:23:00 |
| Page Views: | 7 |
| Departed: | Feb 22, 2003, 3:15 am |
| Starts in: | Queluz, SP, BR |
| Distance: | 217.3 km |
| Selected distance: | 217.3 km |
| Elevation: | + 3747 / - 3747 m |
| Max Grade: | |
| Avg Grade | |
| Cat | |
| FIETS | |
| VAM | |
| Ascent time | |
| Descent time | |
| Total Duration: | 13:23:00 |
| Selection Duration: | 48180 |
| Moving Time: | 13:23:00 |
| Selection Moving Time: | 13:23:00 |
| Stopped Time: | 00:00:00 |
| Calories: | 4041 |
| Max Watts: | |
| Avg Watts: | 84 |
| WR Power | |
| Work | |
| Avg Speed: | 16.7 kph |
| Pace: | 00:03:41 |
| Moving Pace: | 00:03:41 |
Best format for turn-by-turn directions on modern Garmin Edge Devices
Best format for turn by turn directions on Edge 500, 510. Will provide true turn by turn navigation on Edge 800, 810, 1000, Touring including custom cue entries. Great for training when we release those features. Not currently optimal for Virtual Partner.
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